18.2.09

heaven

Hoje estou bonita. Tudo em mim sente bem, meu rosto quase nem precisa de corretivo pras olheiras, muito menos pra esconder as pequenas marcas avemelhadas que deixou. Porque eu pedi, sim. Nem queria tomar banho pra não te tirar de mim. As marcas vão ficar um pouco mais, talvez até amanhã. Depois só a lembrança do brilho azulado do suor na sua pele. Da minha obediência e da estranha invasão de uma música nos meus pensamentos enquanto teus beijos sopram minha nuca. Heaven, I’m in Heaven,
And my heart beats so that I can hardly speak;
And I seem to find the happiness I seek
When we’re out together dancing, cheek to cheek., a Ginger Rogers e o Fred Astaire dançando, mas que maluquice essa. Dá até vontade de cantar alto mas tenho vergonha. Imagina. Me viro pra alcançar sua boca e me calar. Estou no céu. Só tenho que ficar bonita e fazer tudo o que me pede.
A música tocou pra mim o dia todo. Meu passos viraram dança, meu pés criaram asas.

16.2.09

Dá raiva, penso que é covardia esse medo de não se machucar. Dá tristeza, penso que o amor que sente por mim não é tanto pra valer a pena. Choro de raiva e tristeza, porque não há nada a fazer. Resolvo não esperar mais (sem querer ainda espero, uma noite, o sexo, a bonança).

Dá raiva, penso você não me entende, nada de nada, você deturpa o amor até que ele não possa ser o essencial. Dá tristeza, penso na brutalidade com que recebe meus ais e lágrimas. Você não presta pra mim, me repito desde sempre. Você dizendo que sou perfeita pra você. O que se deu foi o inverso de tudo, e me pergunto com raiva e tristeza porque tu não me quis de verdade?

Hoje acordei com raiva. Chorei no chuveiro e decidi não mais esperar. Me dei conta de que não havia o que esperar.

12.2.09

a eternidade e o desejo

"Devo-te muito, Emanuel. Devo-te acima de tudo a certeza de que nunca mais experimentarei a sensação de que devo alguma coisa a alguém. Tornaste-me outra vez mulher, e, pela primeira vez, livre. Amo-me muito melhor desde que te amo a ti - e é por isso que nunca deixarei de te amar, mesmo quando formos já só amigos. Só amigos, nunca mais seremos, tens razão: o prazer explosivo dos nossos dois corpos juntos iluminar-nos-á em definitivo, quando isso a que chamamos amor se tiver despedaçado contra a banalidade dos dias, que é sempre maior do que a pobre banalidade humana. Um dia, Emanuel, o meu estômago deixará de estremecer à aproximação do teu perfume, o meu coração deixará de palpitar ao escutar os teus passos, e a minha cabeça terá de imaginar histórias perversas para que meu corpo consiga molhar-se de desejo pelo teu. Nesse dia, espero que consigamos o feito da amizade. Espero que consigas gostar tanto de mim que transportes a lembrança do nosso encontro para o segredo da intimidade que depois de mim vais encontrar noutras mulheres. Pede-mes que me cale. Dizes que pensar no futuro arruína o encanto do presente. Dizes que tentar dizer tudo é estragar tudo.Tens razão, Emanuel. Mas tentar fixar o presente em imagens, como tu fazes, é também matá-lo depressa, e tu não dás por isso. Os teus filmes congelam a vida, tanto como minhas palavras. Eu não posso ver os teus filmes, e tu amas-me em silêncio. Assim duraremos."

>>Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo

10.2.09

mais um. e outro. toma.

saí. dois cosmopolitans. fora as cervejas de antes. volto, entro porta adentro, imagens de nós dois, te vejo do outro lado, eu abrindo a porta pra você. quantas vezes. uma saudade de repetir, tantas vezes, te abrir a porta, todas as portas. você entrando com sorriso débil, feliz de viver. a vida é boa, você diz. que fosse mais por mim. como quando te abria as portas. saudade. amor-dor. não pode ser diferente. amor.

9.2.09

jinn





li sobre você. coloquei no google> "ugly and evil demon having supernatural powers which he can bestow on persons having powers to call them up. He can take on human and animal shapes to influence men to do good or evil. They are quick to punish those indebted to him who do not follow his many rules."

desde que te entreguei minha alma, fui amaldiçoada.
incapaz de seguir tuas regras, me fere ser tua,
mas já não tenho escolha.

28.1.09

reconciliação

Por quê a gente não faz assim: você me dá umas palmadas, me ajoelho aos teus pés, você diz que fui uma menina má, eu te imploro pra me dar teu perdão, teu pau, tua benção. E a gente faz as pazes.

*

"Sartre via o amor como uma batalha em que dois sujeitos livres tentam se apoderar cada um da liberdade do outro, tentando ao mesmo tempo se libertar do outro." (Hazel Rowley, Tête-à-Tête)

27.1.09

oxitocina



Nem passe deu jeito. Pesada ainda, falta de quando você dizia: suave, gata. Mas não, agora a gente grita. Só sei que a película da nossa bolha não é transparente, rompe.
Passei a te dedicar minhas horas, minhas receitas e os melhores gozos da história. Fiquei repetitiva, triste de notar que não basto. Sei que essa hora chega, só pensei que fosse demorar mais um bocado.

Mas a culpa é da oxitocina. Gostei do nome. E pelo menos a gente resolve o problema de quem leva a culpa.

"No amor romântico, quando duas pessoas fazem sexo, a oxitocina é liberada, o que ajuda a unir os parceiros. O hormônio oxitocina está associado à habilidade de manter relacionamentos interpessoais e laços psicológicos com outros indivíduos. Quando é eliminada durante o orgasmo, ela começa a criar um laço emocional: quanto mais sexo, mais forte o laço."

E o laço fica tão apertado que sufoca e você diz: não tá rolando. Nada suave. Mas fazer o quê? Vale o quanto pesa.

24.11.08

I'm just a woman











Sometimes, a girl. And I cry, and I cry, and I cry.

23.10.08

laço de fita

O porteiro, no interfone: encomenda pra você. Pego uma sacola, dentro uma caixa de papelão pardo, envolto num laço de fita de cetim prata.
Esse foi meu presente de aniversário. Não o meu aniversário. O dele. Escolhi três fotos minhas. Em uma delas escrevi um texto, no photoshop. Uma declaração conformada, de quem sabe que tem, mas não é a hora. Me guarde, eu pedia.
As colei em placas finas de isopor, fomando três pequenos quadros, muito frágeis. Embalei em papel de seda dourado antes de colocar na caixa, quase do mesmo tamanho das fotos.
Na festa, me entreguei a ele. Dizia não importa, sou tua. Ele entendeu. Agora, depois de tempo e medo, ele vinha me lembrar da promessa.
Desfiz o laço e senti as texturas do cetim, as folhas de seda, o papel fotográfico Tento tocar no que fui, não alcanço o que me tornei. Fecho a caixa e guardo o mistério. Quem sabe, na hora certa, eu desfaça o nó e dela saiam borboletas, luz intensa, um sinal.

23.9.08

ponta da língua






O queixo escorregadio, brilhante. Numa lambida sinto gosto de castanha e jasmim. Já tentou definir o sabor e teve a idéia de um sommelier de bucetas. Agora me pego decifrando ingredientes e aromas, notas harmoniosas de uma fórmula dissonante.
Mistério o que ela tem de especial. Me disseram que é textura; macia, pantanosa. Houve teorias sobre a temperatura e o formato. Penso que é enigmática.
Noto uma luz reletida nos olhos dele, como quem abre um baú de tesouros. O ponho outra vez em trevas úmidas, algum planeta não visível a olho nu. Dedos e língua na via láctea inundada.

29.8.08

perigo





foto: Male

Um beijo nunca é só um beijo. Sexo, então, nem se fala. Sexo é compromisso. Não importa o grau, o gênero. Quanto mais sexo com alguém, mais esse grau vai aumentando. Mais e mais daquela pessoa vai fazendo parte de você, te modificando. Cada vez você enxerga mais dela, mais portas se abrem. Inevitável que você seja um pouco dela e ela de você. E ciúme. E medo. E confusão.

Você pode enfim ter se apaixonado. Ou está infectado, teu organismo viciado nas coisas que dela passam pra você, cada vez que o atrito abre seus poros e o sangue correndo rápido esquenta a alma e te desprende de você. Sexo nunca é só sexo. Te desarma, te dá poder, te entorpece, te apaixona.

Tenho sintomas de abstinência, minhas tripas se retorcem, meu sangue corre lento, a respiração é curta. Minha barriga gela e meu corpo desfalece, fraco. Mas o coração palpita, suplica pela sensação plena de receber, pelo olhar vidrado, a invasão, o cheiro, o tapa, a ebulição.

Passo os dias dormindo demais, tendo sonhos fragmentados, evocando lembranças que me fazem desejar o impossível e gozar chorando.

24.8.08

resgate




Me tira agora dessa pasmaceira. Vem me levar. Pode ser qualquer lugar, desde que não seja muito seco. Me desafoga, me alenta, me dá um espaço no teu travesseiro. Melhor, me deixa dormir no côncavo entre o ombro e o peito.

Só preciso me aconchegar, tuas mãos guardando minhas costas. Feche algumas portas, todas escancaradas, não quero que mais ninguém me veja agora. Vou ficar dengosa, ler gibi, fazer as unhas, ver filme besta. Vou ficar de camiseta e meias, comer um monte de batatinhas e ver merda na tv.

Vem rir da minha ignorância, me contar segredo, me ouvir reclamar. Você me enxerga, não vai me julgar.

Pega minha mão, me guarda, me zela. Toma posse de mim.

20.8.08

bossa nova




















Tem uma moça aqui. Calada e certinha. Ela quer as coisas no lugar, a casa limpa, a mente sóbria. Ela quer vestir seus novos sapatos azuis metálicos e caminhar no sol, cabelos dançantes.

A moça sente que, por mais que tudo mude, ela não deixa de ser moça. Chora ouvindo uma música incomum do Tom Jobim, deitada no chão da sala, fones no ouvido. Ela já não gosta de fumar, à noite não aguenta a fumaça lhe arde os olhos.

A crueza não lhe interessa. Ela não quer saber de fulano, que conhece fulaninha, que é super. Que tem isso? Quer viver um grande amor, gastar tempo mirando a lua, cheia, que bonita. O brilho a desfiar linhas que emaranham pra outras paragens.

O som alto atordoa, por que as pessoas falam tão alto? A moça quer tudo mais baixo, mais devagar, mais claro. Pra que assim ela encontre sonhos que a façam querer como antes, amplificar o bom, sorrir como moça.

9.8.08

malbec




conversa entrecortada pela fada safada. os lábios dele continuam mexendo mas só ouço o que elA diz. foi porque estava tão perto, de repente um cheiro, ele vibrando e chegando em mim. "tá vendo? tá acontecendo, teu coração com essa pontada aguda que nem choque, vento que bate e rebate até mostrar teus dentes todos em riso travesso, como se todos pudessem ver teus pensamentos".

perco algumas palavras, o vinho tem sabor intenso, todas as uvas e chuvas que nelas chiaram, o sol que esquentou seus cachos, estalo dourado na casca, carvalhos. ímpeto de te pegar a nuca, rir mais, perto, exalar meu hálito malbec, inspirar todo o ar que te rodeia.

a fada se despede, sem lamento, paciente. eu espero.

10.7.08

danado




















Me assusta a crueldade do amor. Como somos punidos quando ele esbarra nas fatais impossibilidades, nos desencontros, nas contrariedades. Você me machucou porque me frustrou, não fez aquilo que eu esperava, então vou te punir com minha frieza. Vou te mostrar como é ruim não ter minha especial atenção, meu sorriso ao ouvir tua voz, meu olhar admirado. Vou falar com você como falo com minha mãe num dia em que estou mal-humorado. Vou falar com você muito mais interessado em continuar lendo um livro do que ter essa conversa. Mas não serei mal-educado, claro que não. Quero apenas que você sinta o quanto pode ser ruim eu não te amar, você não ser especial pra mim, ser como outra qualquer. Não. Ser claramente preterida a qualquer outra, seu pior pesadelo. Quero que você não apenas sinta que é comum, quero ainda que você sofra com isso e queira desesperadamente que eu seja denovo o cara que te olha como se tudo o que você faz fosse bonito e delicioso, divertido e encantador. Que você implore que eu volte a lhe beijar os pés, súdito. E minha voz lhe soe iluminada ao te ouvir. E que tudo seja envolto nessa atmosfera inventada, ideal, impossível. Onde não existem impossibilidades, não existe amargo, agonia. O que, convenhamos, não é amor.
Mas enfim tua agonia vai me redimir. Se vir tuas lágrimas, imediatamente me sentirei satisfeito, e logo arrependido. Tomado de culpa, vou me redimir e estaremos os dois enfim feridos e curados. Não há mais injustiça. Por algumas horas, com sorte dias, enquanto a reverência de um ou de outro for confortável, enquanto nem eu nem você representarmos ameaça a nós mesmos. Enquanto você me dominar apenas deixando que eu te domine, libidinosamente, puxando seus cabelos e te fazendo pedir tudo, sem parar, até o fim, com dor e desespero. Enquanto eu tiver o poder que você calcula e me dá. Até que eu perceba, num dia em que você estiver meio enjoada da minha cara de bobo, dos meus telefonemas ordinários pra contar mazelas do meu dia, que você está mesmo enfastiada. E vou pensar além, nos outros que você vai ver fazendo cara de bobo, pra variar. Nos telefonemas que você vai fazer pra ouvir outras mazelas. Não. Pra ouvir bobagens que nem te interessam, pra variar. E você vai dar e pedir pra algum idiota que vai beijar teus pés sem nenhuma autoridade.
Escutando aquela música que te mandei, ficará comovida e orgulhosa. Tua sincera admiração vai apagar todos os caracteres cruéis que havia produzido em noite de raiva e insônia maldizendo você. Travo a arma novamente, guardo minha angústia no HD. E vou ser o súdito que você ama. Um desgraçado feliz.

11.6.08

just be nice



















foto: Autumn Sonnichsen


Ele me dizendo como imaginava o jeito que cada mulher goza. E eu?, perguntei, como você imaginava que fosse? “nem conseguia imaginar”. Noto o delirio de me ver “gemendo bonito”, como se presenciasse um milagre. Fica sinceramente emocionado. Mais grato ainda que eu, diluída em névoa prata.
Explico cada tipo. Conto que agora foi um Estrondoso, o sangue borbulhando, um zunido agudo na cabeça, como se um foguete fosse sair das entranhas. Mas que há o Ensurdecedor, que de fato abala minha audição por alguns minutos. Aquele efeito que dá quando a gente muda de altitude muito rápido. Do inferno aos céus.
Tem vezes que dá vontade de chorar, soluçar, pedir que não, como fosse tortura. O Dolorido, rendido e longo. Assim como o Silencioso, um grito contido que dissipa devagar. Raro é o Energético. Acontece de ser tomada por uma disposição de dançar, cozinhar, falar sem parar.
Tem vez de misturar um pouco de um com outro, como aquela noite do bilhete ao lado da sua cama, “como fazem nos filmes”, fui pela madrugada. Um estrondoso, ao mesmo tempo dolorido e energético. Não pude dormir.
Múltiplos, cada vez um, muitos em um, mil e tantas noites, manhãs. Gozar não tem só a ver com o que se faz. Depende do quanto me sinto livre. Do quanto me entrego. Tem esse romantismo de carecer intimidade, que é proporcional à perversão. Quanto mais confio, mais gozo. É como se pensasse: pra me ver assim, desarmada e profunda, não basta ser gostoso, tem que ser firmeza. Tem que merecer. Não só por fazer direito, pelo seu belo pau, tua lingua astuta, tua pegada esperta ou tuas palavras sacanas. Mais que tudo, vou gozar por você ser um cara muito legal.

16.5.08

ciúmes









fotos:autumn sonnichsen

De tudo que ela tiver de diferente, de parecido, de melhor.
De tudo o que ela possa ter pior do que eu.
Das coisas que ela deve saber que eu não sei.
De tudo que você possa admirar nela, tudo que te faz dela alguns minutos;
Quando olha daquele jeito pra ela, e pensa sobre o que ela possa ter de pervertido.
De quando você imagina todas as caras e gemidos e olhadas quando ela gozar, todo cheiro, textura, umidade e temperatura possíveis da sua buceta.
De cada vez que fica de pau duro imaginando a densidade dos seus seios, pegando, beijando, lambendo, esfregando no rosto da sua fantasia, tua máscara de diabo.
Desse tempo todo que não sou a única. Desses minutos, essas horas, das cenas todas das tuas punhetas em que não estou.
Mais da sua cara de bobo olhando pra ela, daquela voz que você faz quando o sangue sai da cabeça.
Das conversas com ela, de todas as vezes que fodeu seus peitos, que afundou nas carnes da sua bunda, o olhar pornográfico.
Da realidade, do que é, do que pode ser.
Do inevitável.

12.5.08

machuca


















foto: autumn sonnichsen

Um vergão dos cinco dedos na minha bunda. Eu falei, eu disse não me machuque, não gosto. Mas do jeito que fez gostei. Talvez por isso o orgasmo dolorido, olhos espremidos, soluço, manha, rendição. E você tão dono de tudo, a crueldade mais doce. Tua arrogância de certamente poder. Isso.
Tá doendo até agora, banda direita da bunda. Mas teu orgulho de me fazer assim, ferida e grata, lençol molhado, você com essa idéia de ter feito tudo tudinho tão certo. E agora cada vez que dói, quando sento mais para a banda direita, vejo denovo tua cara de mal quando tá bom, entre as mechas do meu cabelo com a cara no colchão. O vergão, a vertigem, o soluço. Isso que é dor de amor.

14.4.08

a dor de Capitu




Esperei igual uma mulherzinha. Mandei recado, liguei. Quando já não havia mais nada na tv que me distraísse, me pus a ler contos de amor e ciúme do Machado. Li sobre a dor da Cat Power na Roling Stone. Me entretive. Mesmo assim mordia os lábios, buscava dentro da calcinha em vão. Nada me tirava o medo do coração. Me resignei e chorei umas lágrimas doces de amargura. Pensei, você não, você não pode me entristecer. Porque você sabe que a dissimulação e a incerteza do olhar de Capitu escondem, além da verdade impossível, fragilidade tácita.
Me rendi à cama. Apenas passar a noite, sem outra saída que não fosse amanhecer. Nove horas noto o ruído molhado dos carros. Meu celular apita suave e agudo, uma só vez. Eu tenho uma nova mensagem. A promessa de não mais me angustiar. Um novo dia e uma noite sem delonga. Quem sabe?

5.4.08

15 anos



























Suando nas mãos. Me sinto nua com a escolha, que já parece muito errada, do vestido de seda preto. Na verdade é uma camisola da Victoria’s Secret, lembrança da única viagem a Nova York, aos 15 anos.
Não queria ir, com pai e irmão, melhor era ficar na praia. Pleno janeiro e eu indo passar frio. Melhor era esperar por Presto. Com ele era diferente. Mais velho, lindo, misterioso. Surfista-aviador-motoqueiro. Meu perfeito fetiche adolescente.
Nos encontrávamos à noite, no bar à beira mar, eu molinha de cerveja e caipirinha de maracujá, ele no grau do quinto baseado. Eu nunca tinha fumado. Ele ia e voltava enquanto eu apenas esperava. Até que ele chegasse, "vamos dar um rolê?". Seu apartamento, algum quintal desabitado ou uma barraca da praia. Me dava quase lúcida enquanto ele mal abria os olhos, numa viagem solitária e breve. Dia seguinte, não variava o enredo: era chegar na areia e avistá-lo no mar, com a prancha, e esperá-lo sair. Então só aquele "oi", com um sorriso de falsa timidez. A barba sempre por fazer, o corpo lépido e úmido, penugem dourada. De dia, ver já estava bom.
Quando andava sumido, minha espera acabava quando passava um avião, “é o Presto”, diziam. Domingo voava na moto pra só voltar na sexta-feira. Por terra, céu ou mar, Presto podia aparecer. A vida era a noite e a doce espera.

***
Então é quinta, eu com 30, vestido errado. A hora chegou, noite, ir. Suando nas mãos